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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

“Catolicismos” ideológicos de esquerda e de direita: heresias farisaicas disfarçadas de zelo


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“Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (João 13,35).
Não existe absolutamente nenhuma forma de “provar” o próprio catolicismo que não seja o amor ao próximoE como se prova o amor ao próximo? Cristo responde: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos” (João 15,13).
E quem é amigo de Cristo?
Cristo responde: “Vós sois meus amigos se fizerdes o que vos mando” (João 15,14).
E o que Cristo nos manda?
Cristo responde: “Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo sereis os filhos de vosso Pai que está no céu, pois Ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons e faz chover sobre os justos e sobre os injustos. Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos?” (Mateus 5,44-46).
Tudo isso deveria ser a coisa mais batida do universo para qualquer um que tem o atrevimento de se dizer “cristão autêntico”.
Mas…
Assim como ocorria no tempo do próprio Jesus sobre esta terra, o aparente zelo religioso pode ser um abominável disfarce para um nível assassino, apóstata, diabólico de egoísmo, vaidade, arrogância, sectarismo e desprezo escandaloso pelo próximo.
Aparentavam grande zelo aqueles que não hesitavam em “coar um mosquito e engolir um camelo” (cf. Mt 23,24), denunciou Jesus depois de descrevê-los: “Atam fardos pesados e esmagadores e com eles sobrecarregam os ombros dos homens, mas não querem movê-los sequer com o dedo” (Mt 23,4). Mais veemente ainda: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Percorreis mares e terras para fazer um prosélito e, quando o conseguis, fazeis dele um filho do inferno duas vezes pior que vós mesmos” (Mt 23,15).
Os fariseus hipócritas prezam a forma acima do conteúdo. Para eles, o importante é o protocolo, a regra, a lei exterior – mesmo que o espírito seja traído da mais nefasta e satânica maneira em nome das aparências.
Um fariseu preza as exterioridades e se preocupa com as aparências, formalidades e rigidezes protocolares. E não há nada de errado nisto – desde que não se fique apenas nisto. “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia, a fidelidade. Eis o que era preciso praticar em primeiro lugar, sem contudo deixar o restante” (Mt 23,23).
Justiça, misericórdia, fidelidadeAmor ao próximo – inclusive aos inimigos. Amor ao próximo até dar a vida pelos amigos. Orar pelos que nos perseguem. Perdoar até setenta vezes sete. “Eis o que era preciso praticar em primeiro lugar“.
O erro dos fariseus, que se explicita nas suas palavras e nos seus atos (porque “pelos seus frutos os conhecereis“, cf. Mt 7,20), é umerro de priorização.
Nos tempos atuais, como em qualquer outro tempo, esses erros continuam a ser cometidos na priorização da forma, do protocolo, da regra, que, mesmo sendo necessários, não podem jamais sobrepor-se ao amor. Afinal, é só a serviço do amor que existem as formas boas de comportamento.
O papa Francisco vai a Cuba? Não pode. É comunista. Mas e o amor ao próximo? Não pode. É comunista. Mas como ajudar os cubanos a viverem a fé com liberdade sem ir até as causas da sua falta de liberdade para superá-las com amor, misericórdia, justiça? Não pode. É comunista.
O papa Francisco se encontra com o patriarca Kirill? Não pode. É laranja da KGB. Mas e a reconciliação? E o pedido de Cristo “para que todos sejam um”? Não pode. É laranja da KGB. Mas a Igreja ortodoxa existe há mil anos, séculos e séculos antes do surgimento da KGB. Não pode. É laranja da KGB.
O papa Francisco escreve uma encíclica sobre o cuidado da nossa casa comum? Não pode. É New Age, ecologismo e comunismo verde. Mas Deus não nos confiou o cuidado responsável da criação já no primeiro livro da Bíblia? Não pode. É New Age, ecologismo e comunismo verde. Mas Jesus mesmo não estava sempre em contato com a natureza, não contemplava e citava constantemente em suas parábolas e discursos as sementes, os ramos, as árvores, os campos, os lírios, as flores, o trigo, os frutos, o mar, os pássaros? Não pode. É New Age, ecologismo e comunismo verde. E São Francisco de Assis, que chamava de irmãos e irmãs o sol e a lua e os animais e plantas? Não pode. É New Age, ecologismo e comunismo verde.
O papa Francisco fala de justiça na distribuição dos bens materiais? Não pode. É teologia da libertação. O papa defende uma economia a serviço das pessoas e não pessoas a serviço da economia? Não pode. É teologia da libertação. Ir até as periferias da existência, promover a equidade no acesso aos recursos, garantir uma sobrevivência digna, derrotar o pecado gravíssimo da usura e da ganância? Não pode. É teologia da libertação.
O papa Francisco denuncia a cultura do descarte e da coisificação dos seres humanos? Não pode. É obscurantismo e insensibilidade reacionária. O papa arremete contra a irresponsabilidade no desfrute inconsequente do sexo? Não pode. É obscurantismo e insensibilidade reacionária. O papa reitera que o aborto é um crime abominável, perpetrado em nome do egoísmo, do utilitarismo e da eugenia, que inventaram o suposto “direito” a ter “filhos perfeitos”, como se uma vida humana fosse comparável a um “sonho de consumo”? Não pode. É obscurantismo e insensibilidade reacionária.
O papa Francisco reafirma a doutrina moral da Igreja?Não pode. É dogmatismo e intolerância. Ele reitera que o sacerdócio instituído por Cristo foi confiado somente aos seus discípulos homens? Não pode. É dogmatismo e intolerância. O papa Francisco reafirma que o matrimônio – não só cristão, mas natural – é exclusivamente entre um homem e uma mulher, é indissolúvel e é aberto à vida? Não pode. É dogmatismo e intolerância.
O papa Francisco prioriza a misericórdia na pastoral familiar? Não pode. É modernismo, heresia e sentimentalismo. Os casais em segunda união devem receber compreensão, amor e misericórdia, precisamente porque é necessário testemunhar ao mundo o compromisso indissolúvel do matrimônio para as próximas gerações? Não pode. É modernismo, heresia e sentimentalismo. Os homossexuais não devem ser julgados e condenados, mas sim acolhidos com respeito, fraternidade e amor cristão? Não pode. É modernismo, heresia e sentimentalismo. Mas Cristo não andava com as prostitutas, pecadores e publicanos? Não pode. É modernismo, heresia e sentimentalismo. Mas Cristo não acolhia e oferecia amor e misericórdia a samaritanos, pagãos e romanos drasticamente imorais? Não pode. É modernismo, heresia e sentimentalismo.
O papa Francisco pede acolhimento para migrantes e refugiados? Não pode. São terroristas infiltrados. O papa mandou abrir as portas das igrejas de todo o mundo para acolher os refugiados, ainda que não sejam cristãos, ainda que sejam muçulmanos? Não pode. São terroristas infiltrados. Mas muitos deles são crianças. Não pode. São terroristas infiltrados. Mas milhares deles, mesmo muçulmanos, estão sendo perseguidos, torturados e assassinados em seus países. Não pode. São terroristas infiltrados. E as obras de misericórdia? Não pode. São terroristas infiltrados.
O papa Francisco pede ecumenismo entre os cristãos e diálogo civilizado e amoroso com as outras religiões? Não pode. É estupidez, frouxidão e traição. Mas como é que os não cristãos vão conhecer a Cristo se os cristãos não O testemunharem na prática? Não pode. É estupidez, frouxidão e traição. E como vai brilhar a nossa luz diante dos homens se a escondemos deles, recusando-nos até a manter contato? Não pode. É estupidez, frouxidão e traição.
Os fariseus de esquerda e direita estarão sempre a postos para condenar a justiça, o amor e a misericórdia em nome de regras e protocolos, esquecendo que as regras e protocolos só fazem sentido quando baseadas precisamente na justiça, no amor e na misericórdia.
Diante da tentação constante do farisaísmo de direita e de esquerda, sejamos justosamemos e pratiquemos a misericórdia.
Afinal, “ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine” (I Coríntios 13,1).
Afinal, “ama e faz o que queres” (Santo Agostinho), porque, se amas de verdade, só vais querer fazer o melhor pelo próximo.
Amemos. Com obras. Na prática. Inclusive aos inimigos. Até dar a vida. Isto é o Evangelho. Isto é o cristianismo.
O resto é ideologia farisaica.

Fonte: Aleteia

terça-feira, 31 de março de 2015

PÁSCOA 2015

“A morte foi tragada pela vitória; onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Cor 15,54b-55)

         Caríssimos leitores e leitoras: “O Senhor ressuscitou verdadeiramente, Aleluia!”. Este é o canto que nesta data se eleva de todas as bocas em que o sentido da Páscoa não se perdeu. Páscoa é passagem; passagem e ressurreição. O Senhor prometeu ao povo emigrado, que sofria, a duras penas, a escravidão – como promete também a nós, emigrados da verdadeira pátria, no exílio desta terra, e sofrendo sob o peso das mil e uma escravidões que não fazem esquecer a nossa verdadeira pátria – prometeu que passaria e que seria um sinal de salvação.

         E, na plenitude dos tempos, o Senhor veio, assumiu por nós a figura de nossa miséria, o que era promessa se tornou realidade, o que era passagem se ternou conversão, e o que era libertação do jugo estranho se tornou salvação definitiva e vida eterna. Por isso é a Páscoa, realmente, a chave do cristianismo. E está intimamente ligada ao Natal. Ora, se nesta solenidade devemos nos alegrar de Deus ter nascido como homem na mais humilde das condições humanas é porque um dia ressuscitará da morte para que o homem possa ser elevado à visão divina, pois a humanidade de Cristo só tem sentido em razão da sua divindade. O Natal só tem sentido pela Páscoa.

         Desta forma, enquanto no Natal Deus se fez homem para partilhar dos sofrimentos da humanidade e ensinar aos homens o sentido da vida terrena, na Páscoa o Filho do Homem revela sua divindade, volta ao seio do Pai para mostrar aos homens o caminho da verdadeira vida.

         Apesar de todos os anos celebrarmos tão grande solenidade, nós ainda nos apoiamos e confiamos nas forças visíveis, nas vitórias deste mundo, em tudo que nos pareça uma garantia de um poder visível. Esquecemos, entretanto que Jesus se cansara de anunciar aos seus íntimos que o preço da vitória é a derrota, a garantia da vida é a morte, a chave da alegria o sofrimento. E este é o sentido desta Páscoa de 2015: num mundo que anda armado, e “armado até os dentes” devido a uma desconfiança perene do vizinho, é preciso compreender que não são tais armas que salvarão o mundo e sim a força moral e espiritual da regeneração pelo espírito. É preciso que o homem deixe seus vícios, não volte ao pecado, pois a volta ao pecado é muito mais perigosa que o próprio pecado.

         Este é o espírito pascal que já começamos a viver no Natal. O Natal se interpreta pela Páscoa. Por isso precisamos celebrar cada festa cristãmente. E o sinal disso é que tudo ter um sentido perene, duradouro, em função de uma vida maior, sem deixar o pretexto do comércio engolir nossa fé.


         Caríssimos leitores e leitoras: “Cristo ressuscitou verdadeiramente, Aleluia!”. Não por símbolo, por imaginação ou por desejo dos discípulos. Ressuscitou verdadeiramente. Vivamos, portanto, em espírito de verdade, procurando em tudo a verdade, fugindo do erro e da mentira, pois só assim seremos fiéis ao Natal e à Páscoa.

Amém!

Para concluirmos nossa série de artigos sobre a Fé da Igreja falaremos hoje sobre uma palavra que sempre pronunciamos, mas que, nem sempre, compreendemos seu significado: a palavra “Amém”. Esta palavra sempre conclui nossas orações que rezamos, particularmente o Credo que professamos. É uma palavra de origem hebraica que comporta a ideia de rochedo, de solidez. É aquilo ao qual podemos agarrar-nos para sermos salvos, mesmo quando tudo parece desmoronar. Daí também a ideia de confiança e abandono na Palavra e no projeto de Deus, porque ele nos ampara e nos sustenta.
            Dessa forma, Jesus é o Amém do Pai, pois durante toda a sua vida, e especialmente durante sua Paixão, apoiou-se apenas no Amor do Pai e aderiu totalmente à vontade de salvação, até a morte de Cruz.
            A partir da sua ressurreição, seu “Amém” espalha-se pelo mundo todo, entra no coração do cristão pela fé e sempre acaba por mostrar-se a quem procura a verdade com honestidade e perseverança. Pelo mistério da Cruz, em que por seu “Amém” doloroso Jesus transforma toda a morte em Vida Eterna, todo mal em potência de salvação para o mundo.

            Por isso, todas as vezes que dizemos “Amém” dá uma adesão total ao Senhor, se entrega totalmente a ele. Em nossos corações, esse “Amém” vitorioso de Jesus nada mais é que a fé. E com o nosso Amém afirmamos mais uma vez: creio e professo.

Creio na ressurreição da carne e na vida eterna

        Todos nós cristãos devemos ter uma fé firme e inabalável na ressurreição. Essa é a condição primordial que nos garante o direito de sermos chamados de cristãos. Isso porque todo o cristianismo foi fundado a partir da certeza de que Cristo ressuscitou e venceu a morte e, a partir disso, nós também ressuscitaremos e viveremos para sempre, já que fomos criados não para uma vida transitória, mas imortal.
            Para crermos e professarmos esta verdade de fé, é preciso saber o que é ressuscitar. Ressuscitar não é apenas voltar à vida, mas ter nosso corpo corruptível transformado e glorificado, sem necessidade de ocupar um lugar no espaço, não vai mais envelhecer, não vai mais morrer. Acontecerá conosco o que aconteceu com Cristo. Dessa maneira, todos nós, em Cristo, ressuscitaremos com nosso próprio corpo, que temos agora. Isso acontecerá definitivamente no “último dia” ou no “fim do mundo” (cf. 1Ts 4,16).
            Além disso, é verdade que, de certa maneira, já ressuscitamos com Cristo, pois, pela ação do Espírito Santo, nossa vida cristã é, já agora na terra, uma participação na morte e ressurreição de Cristo. Devemos essa participação ao batismo que nos torna participantes da vida celeste de Cristo ressuscitado.
            O cristão deve crer também que não fomos apenas criados para viver alguns anos aqui na terra, como transeuntes. Fomos criados para a eternidade. Por isso, a morte não é o fim de nossa vida, nem é ponto de chegada, mas início da nova e definitiva vida. A isso chamamos de vida eterna.
            Para podermos nos encontrar com Deus e ressuscitar com Cristo, é preciso deixar a mansão deste corpo para ir morar junto do Senhor (cf. 2Cor 5,8). Graças a Cristo, a morte cristã tem sentido positivo: é o fim da vida terrena do homem, que foi tempo para o acolhimento ou recusa da graça divina, manifestada em Jesus Cristo. É momento em que nos colocamos diante de Cristo para a felicidade definitiva (céu), mais um período de purificação (purgatório) ou a condenação eterna (inferno).

            Essa consumação, encontro do homem com Cristo, justo juiz da história, será a realização última da unidade do gênero humano, querida por Deus, desde a criação e da qual a Igreja peregrina no mundo é apenas um “sinal” ou “sacramento”. Os que estiverem unidos a Deus formarão a comunidade dos remidos e Deus será tudo em todos, na vida eterna (cf. 1Cor 15,28).

Creio na Remissão dos Pecados

            Este artigo da fé possui íntima ligação com a doutrina do Espírito Santo, isso porque foi o próprio Cristo Ressuscitado quem, no dia da Páscoa, disse aos Apóstolos: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, serão perdoados; a quem os retiverdes, lhes serão retidos” (Jo 20,22b-23). Isso nos certifica que é pelo dom do Espírito Santo que os Apóstolos receber o poder de perdoar os pecados, em nome de Jesus Cristo.
            Todavia, o Catecismo afirma que o primeiro grande sacramento do perdão é o batismo: “O batismo é o primeiro e principal sacramento do perdão dos pecados, porque nos une a Cristo, morto pelos nossos pecados e ressuscitado para a nossa justificação, para que, como diz São Paulo ‘nós também vivamos uma vida nova’ (cf. Rm 6,4)”.
            Jesus sabia que o ser humano, mesmo depois de ter recebido o batismo, voltaria a pecar, pois conhecia suas fraquezas e limitações. Por isso deixou para a Igreja este poder: o de perdoar as faltas a todos os penitentes até o último instante da vida.
            É um pouco difícil compreender como um homem pode perdoar os pecados, mas Jesus confere este poder. A Igreja é a fiel depositária deste poder de abrir ou fechar ao perdão. Na sua misericórdia, Deus perdoa cada homem, mas Ele mesmo quis que quantos pertencem a Cristo e à Igreja recebam o perdão mediante os ministros da Comunidade. Através do ministério apostólico, a misericórdia de Deus nos alcança, nossas culpas são perdoadas e nos é conferida a alegria. A Igreja não é senhora do perdão, mas é serva do ministério da misericórdia e rejubila todas as vezes que pode oferecer este dom divino.
Talvez muitas pessoas não compreendam a dimensão eclesial do perdão, porque predominam sempre o individualismo e o subjetivismo. Sem dúvida, Deus perdoa cada pecador arrependido, pessoalmente, mas o cristão está unido a Cristo, e Cristo à Igreja.
            Quando nós afirmamos crer na remissão dos pecados, queremos dizer que nos colocamos em sintonia com a Igreja que nos apresenta os sacramentos do Batismo, da Penitência e a Unção dos Enfermos, para os enfermos que não podem se confessar mas estão perfeitamente arrependidos.


Creio na comunhão dos Santos

Irmãos, o artigo desta edição completa, sem dúvida nenhuma, o artigo anterior “Creio (na) Igreja Católica”, pois a Igreja é a Comunhão dos Santos. A expressão designa, em primeiro lugar, as “coisas santas”, sobretudo a Eucaristia, em redor da qual a Igreja se reúne para sua salvação e para a sua missão católica. Mas precisamente por isso, a consequência imediata foi a passagem para a “comunidade das pessoas santas”. A partir daí, lançamos um olhar sobre o mistério insondável: “porque Jesus “morreu por todos”, ninguém pode doravante viver e morrer para si só” (2Cor 5,14s); mas numa renúncia de cada um a si mesmo por amor, o que há de bom pertence a todos. Daí resulta um intercâmbio entre todos os membros do corpo eclesial de Cristo.
Que nos garante tudo isso é o batismo. Vemos na escritura que “desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos!” (1Jo 3,2a). Isso significa que o Batismo não é uma experiência isolada e momentânea, mas ela se projeta para a vida toda do batizado, inclusive na vida eterna.
O chamado para partilhar da comunhão e da amizade com Deus é o fundamento para uma vida de santidade, sendo o próprio Cristo autor e operador da santidade. Para tanto, somos, a partir do Batismo, incorporados em Cristo e no seu Corpo, a Igreja: “De fato, o corpo é um só, mas tem muitos membros; e, no entanto, apesar de serem muitos, todos os membros do corpo formam um só corpo. Assim acontece também com Cristo. Pois todos foram batizados num só Espírito para sermos um só corpo” (1Cor 12,12-13). É exatamente isto que professamos ao rezar o Creio e dizermos “creio na comunhão dos santos”.
Comunhão dos santos é a união de Jesus Cristo, cabeça da Igreja, com todos os seus membros e, por sua vez, entre esses mesmos membros. Por esta comunhão os méritos de Cristo e de todos os santos que nos precederam na terra ajudam-nos na missão que o próprio Senhor nos pede para realizar na Igreja.

Resumindo: essa união entre os membros do Corpo de Místico de Cristo se dá por uma comunhão de fé, de preces, da vida sacramental e dos carismas. Essa realidade eclesiológica ultrapassa o tempo e o espaço, tanto que a morte não interrompe a comunhão existente entre os seres humanos.
Creio (na) Santa Igreja Católica

Conforme nos diz a Constituição Dogmática “Lumen Gentium” sobre a Igreja do Concílio Vaticano II, é preciso anunciar o Evangelho aos homens e iluminá-los com a claridade de Cristo que resplandece na face da Igreja (cf. LG 1). Com isso, vemos que este artigo sobre a Igreja depende dos artigos referentes a Jesus e, igualmente, depende do artigo anterior que se refere ao Espírito Santo, pois a Igreja é o lugar onde floresce o Espírito.
            Crer que a Igreja é Una, Santa, Católica e Apostólica é inseparável da fé em Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Dessa forma, seria mais correto professarmos em nosso Credo que cremos em uma Igreja Santa, dizendo “creio a Igreja” (em latim: Credo Ecclesiam) e não “Creio na Igreja” (Credo in Ecclesiam) como fazemos habitualmente, para não confundirmos Deus com suas obras e para atribuir claramente à bondade de Deus todos os dons que ele pôs em sua Igreja. Em outras palavras, reconhecemos, na fé neste Deus, o que Ele se dignou a fazer por nós.
            A Igreja (do grego ekklésia que significa convocação) é o primeiro dom de Deus. É pressuposto que ela existe e é conhecida; o crente individual que diz “eu creio”, fá-lo no interior de uma comunidade. É a imagem o Israel de Deus, povo santo e sacerdotal, cuja a flor mais formosa tornou-se a Mãe do Salvador; este deu esta mãe aos pés da Cruz como modelo ao seu novo “Israel de Deus” (cf. Gl 6,19). O Espírito em Pentecostes termina esta obra e concede aos membros da comunidade a capacidade de levar a cabo no mundo inteiro a ordem de missão do Filho. A Igreja, enraizada em Israel, elevada, através da Eucaristia do Filho, à dignidade de ser corporalmente sua esposa e tornada, pelo Espírito, capaz de uma resposta condigna, é sem dúvida um produto do Deus Uno e Trino que leva ao cumprimento a criação.
            Por isso, a Igreja é ao mesmo tempo visível e espiritual, sociedade hierárquica e Corpo Místico de Cristo. Ela é uma, formada de um elemento humano e um elemento divino. Somente a fé pode acolher este mistério que a torna Sacramento de Salvação no mundo presente e o instrumento da comunhão de Deus e dos homens.


Creio no Espírito Santo

            Desde sempre o cristianismo acreditou no Espírito Santo e na sua divindade. Isso porque ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo. É o Espírito que nos conduz e revela Jesus em nossos corações.
            Que o Espírito Santo é Deus é o que diz em latim a palavrinha “In” e em português “no” (Credo in Spiritum = Creio no Espírito), o que quer dizer: entrego-me na fé ao mistério santo e salvador do Espírito. A sua especificidade será a de atuar, segundo a liberdade divina, no interior do espírito livre do homem, abrindo as profundidades de Deus, que só ele sonda, à nossa limitação própria: “Recebemos o Espírito que vem de Deus, que nos faz conhecer as graças que por Ele nos foram concedidas!” (1Cor 2,12). A ele, que é o mais terno, o mais precioso em Deus, havemos de abrir-nos sem resistência, sem pretensões, sem endurecimentos, a fim de obter dele a iniciação ao mistério: Deus é Amor.
            O Espírito é, portanto, uma das Pessoas da Santíssima Trindade, “consubstancial ao Pai e ao Filho”. É a efusão do amor mútuo do Pai e do Filho, tão substancial que, pela sublime fecundidade do Seu amor, transmitem Sua mesma natureza e essência, sem Se privar delas.
            É o Espírito consolador, prometido por Jesus para ser nosso advogado. Existe um vínculo, eternamente indissolúvel, que o une ao Senhor ressuscitado: ele completa e atualiza a Sua obra. Assim, o Senhor age no hoje da Igreja, pelo Espírito Santo e no Espírito Santo.
            O Espírito possui dons, sete conforme nos ensina a sã doutrina. Esses dons acompanham a infusão da graça e se manifestam como qualidades e ornamentos da própria graça. Recebemos no batismo e são confirmados na Crisma. Mas a qualquer momento, Deus envia a seus filhos um fortalecimento dos dons para que possam executar determinada tarefa ou exercer um ministério. São dons: Sabedoria, Inteligência, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade e Temor de Deus.

            Em suma, o Espírito é o amor eterno, que procede do Pai e do Verbo Divino, e que faz surgir nas criaturas humanas (a favor delas e sem que elas notem) uma resposta de amor ao Amor Divino que as criou.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Donde há de vir a julgar os vivos e os mortos

A teologia denomina “parusia” a volta gloriosa do Cristo no final dos tempos. A “parusia” significa a consumação do mundo, o retorno ao Paraíso.
            O momento em que Jesus Glorioso virá pela segunda vez pode se dar a qualquer momento, mas, esse dia é um segredo que nem a Jesus, enquanto homem, foi revelado. Portanto, se nem Jesus revelou, não há ninguém que possa profetizar esse dia com segurança. Qualquer um que esteja dizendo “é chegada a hora” está usurpando de um poder que não possui. Precisamos ficar atentos aos sinais dos tempos, mas, nenhum de nós pode saber o tempo exato de duração que simboliza cada sinal.
No Credo professamos assim: “Donde há de vir a julgar os vivos e os mortos”. Fundamentalmente o Filho vem sempre do Pai, esta é a sua natureza. Ele vem como a Palavra, a Expressão, a onipotência do amor do Pai. Esse “Donde”, não indica um lugar, mas um estado de pleno poder, que não sofre diminuição, da origem do Pai. Isso quer dizer que ele nos conhece profundamente e agirá como aquele que experimentou toda nossa culpabilidade. É participante do poder do Pai, do qual procede.
Por isso ele vem julgar, ou melhor, dividir o sim do não, decidir entre direita e esquerda. Um texto que representa esse julgamento está em Mateus 25. O julgamento serve para abrir caminho para o eterno, para nos colocar diante da Verdade. Todos nós estaremos perante este juízo, exceto a Mãe do Salvador, na qual nada há para ser julgado. Como o Senhor julgará, nenhum de nós pode dizer, pois só uma coisa foi-nos dita: “Eu tinha fome e me destes (ou não me destes) de comer”. Mostramos misericórdia ou só amamos a nós próprios? Onde nos situaremos, à direita ou à esquerda?
O que precisamos crer, portanto, é o que nos diz o Catecismo, quando afirma que Cristo é o Senhor da Vida Eterna e o pleno direito de julgar definitivamente as obras e os corações dos homens pertence a ele enquanto Redentor do mundo. Ele adquire este direito na Cruz. Entretanto, ele veio para salvar e dar a Vida e não julgar e condenar.” É pela recusa da graça nesta vida que cada um já se julga a si mesmo, recebe de acordo com suas obras e pode até condenar-se para a eternidade ao recusar o Espírito de amor.


Subiu aos céus, está sentado à direita de Deus Pai, todo-poderoso

O Símbolo nos ensina a crer em quem ressuscitou o terceiro dia, subiu aos céus e está sentado à direita do Pai. A Ascensão é a “volta ao Pai (cf. Jo 13,1; 14,28; 16,28), onde Jesus, “sentado a sua direita”, começa uma existência nova em plenitude de vida e de poder. Cristo, antes de vir ao mundo estava junto a Deus Pai como Filho, Palavra, Sabedoria. Sua exaltação consistiu, pois, no retorno ao mundo celestial, de onde veio, revestindo-se de novo da “glória que possuía desde antes da criação do mundo” (Jo 6, 33-58).
            Paulo resume a fé da Igreja dizendo que “Cristo morreu, mais ainda, ressuscitou e está sentado à direita de Deus” (Rm 8,34). De fato, Cristo está à direita de Deus Pai pela eficácia de sua força poderosa. Dessa forma, afirmar que o Ressuscitado está à direita de Deus é recorrer, obviamente, a uma imagem para exprimir a elevação inaudita da natureza humana que passa a participar da majestade paternal. O “à direita” manifesta a honra que lhe é dada, e o mesmo se passa com a imagem do estar sentado. Estêvão, ao morrer, vê “o Filho do Homem, de pé, à direita de Deus”, no que se manifesta que o glorificado está pronto para a ação, como se se preparasse a tomar junto de si aquele que foi lapidado. Assim, pode-se dizer que o Filho do Homem, chegado ao seu pleno cumprimento, continua a agir na história do mundo até que tudo tenha crescido até àquele que é a Cabeça, o Cristo (Ef 4,15). Desta maneira continua sempre válida a expressão do Jesus terrestre ao dizer que faz o que vê o Pai fazer (Jo 5,19s). Na vida eterna, repouso e atividade coincidem: só assim é vida verdadeira.

            O que subiu aos céus partilha a autoridade do “Todo-poderoso”, pois o Pai “entregou ao Filho o poder de tudo julgar, para que todos honrem o Filho como honram o Pai” (Jo 5,23). Que poder poderia ser maior do que julgar o que é mais íntimo, mais secreto em cada homem, e de lhe atribuir o seu correspondente destino eterno? E ainda: Até que ponto a vontade pecadora pode opor-se à graça de Deus? Deste juízo, cujo processo não podemos dizer antecipadamente, trata o próximo artigo da nossa confissão de fé.

Ressuscitou ao terceiro dia

Ressuscitou ao terceiro dia, segundo as escrituras”, diz Paulo (1Cor 15,4), que quer também ver nesta ressurreição, que ninguém esperava o cumprimento do que havia sido anunciado. A ressurreição e, de fato, importantíssima, porque foi o apogeu daquela serie de milagres com os quais nosso Senhor proveu ser o embaixador de uma Revelação divina. Depois, porque nos provou de uma vez para sempre que a nossa raça tinha triunfado sobre a morte. E, por ultimo, porque foi o modelo e o canal daquele ressurgir para uma vida nova que esta ao nosso alcance através dos sacramentos. Foi uma prova, uma esperança, um desafio.
            Que lugar ocupa a ressurreição de Cristo na nossa fé? A ressurreição de Jesus e a verdade culminante da nossa fe em Cristo e representa, com a cruz, uma parte essencial do Mistério Pascal. Se Jesus não ressuscitou, vã e a nossa fé! Toda a nossa fe se baseia não na ausência de um cadáver, mas sobre o testemunho dos Seus discípulos. Se Jesus ressuscitou, significa que ele era de verdade Aquele que pretendia ser. Se o Pai O ressuscitou dos mortos, significa que suas palavras não são somente palavras de um homem sábio e bom, aniquilado pelo poder corrupto, como aconteceu com tantas outras personalidades de valor. Se Jesus ressuscitou, a morte foi dizimada.
            Jesus verdadeiramente ressuscitou e muitos são os sinais que o testemunham, como lembram São Lucas nos Atos dos Apóstolos e São Paulos nas suas cartas. A ressurreição. Tais sinais vão além do sinal essencial constituído pelo tumulo vazio. A ressurreição de Jesus e atestada pelas mulheres que foram as primeiras a encontrar Jesus e o anunciaram aos Apóstolos. A seguir, Jesus “apareceu a Cefas (Pedro), e depois aos Doze. Seguidamente, apareceu a mais de 500 irmãos de uma só vez” (1Cor 15,5-6). Os Apóstolos não teriam podido inventar a ressurreição, uma vez que esta lhes parecia impossível: de fato, Jesus repreendeu-os pela sua incredulidade.

            A ressurreição de Jesus desencadeou muitas perseguições e acusações, ate mesmo a de que os Apóstolos “fundaram” uma nova religião. Numa nação que esperava um Messias vitorioso e combatente, seria inadequada a pregação de um Messias humilde e derrotado, e de que maneira: crucificado! Os Apóstolos não possuíam tanta habilidade para inventar uma historia tão impopular. Muitos, ate hoje, fazem de tudo para negar a veracidade da ressurreição, entretanto, a solução mais simples e provavelmente a mais verdadeira: Jesus realmente ressuscitou!   

“Descendit ad inferos”

Dou-lhes hoje o tema do artigo em latim, mas não por ter tido um lapso de memória. Sei muito bem que seria mais útil falar na nossa própria língua. Mas apresento-lhes hoje este ponto do Credo em latim de maneira proposital porque sua tradução habitual pode levar-nos a conclusões erradas.
            Desceu aos infernos (ou “à mansão dos mortos” conforme a tradução litúrgica), repetimos nós, sem saber muito bem o que estamos dizendo. O que entendemos por inferno é um lugar ou estado de castigo. Ora, seria um absurdo admitir, mesmo por hipótese, que Cristo tivesse descido ao inferno, tomando a palavra nesse sentido. Sabemos que Ele pregou aos espíritos que estavam na prisão. Mas não teria sentido pregar aos espíritos incapazes de se arrepender.
            Por isso, deve estar claro que nosso Senhor não desceu ao lugar do castigo eterno (ad infernum), mas dirigiu-se às pessoas que estavam embaixo (ad inferos), no mundo inferior, destino de todos os que morriam, lugar no qual estavam todas as pessoas que tiveram uma vida santa e que aguardavam a ressurreição de Jesus para poderem entrar no céu. Por isso que o título está em latim: para percebermos a sutileza deste artigo da fé.
            A doutrina da Igreja nos ensina que essas almas santas (Patriarcas, profetas, etc) que esperavam o seu Libertador, no seio de Abraão, foram libertadas por Jesus, quando ele desceu à mansão dos mortos (ad inferos, aos infernos – mundo inferior). Portanto, Jesus não desceu aos infernos para destruir o inferno da condenação, mas para libertar os justos que o haviam precedido e aguardavam um Salvador.

            “A Boa Nova foi igualmente anunciada aos mortos [...]” (cf. 1Pd 4, 6). A descida à mansão dos mortos seria o complemento, em plenitude, do anúncio evangélico da salvação. É a fase última da missão messiânica de Jesus. Os mortos também foram atingidos pela morte redentora de Jesus.

Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi Crucificado, Morto e Sepultado.

“Padeceu”. É significativo que o Credo não faça nenhuma afirmação sobre os mais de trinta anos vividos de Jesus, os seus ensinamentos e seus milagres, bem como sobre a sua iniciativa de juntar os discípulos tendo em vista a futura Igreja. Isto mostra que toda a vida e ação de Jesus foram entendidas por ele próprio em relação com a “hora” que se aproxima, só na qual a ação decisiva, que tudo mudaria: o sofrimento pelo mundo pecador. Sobre sua vida e obras temos o testemunho do Evangelho e isso nos basta.
            Entretanto, a morte de Jesus é um dado histórico que conhecemos tanto pelo Bíblia, onde aparece o governador Pôncio Pilatos, governador da palestina, como também por meio dos escritos dos historiadores que afirmam que Jesus foi crucificado sob Pôncio Pilatos.
            Todos os evangelistas relatam claramente a morte de Jesus. Isso é importante quando se deseja afirmar sua verdadeira humanidade. Se ele não tivesse morrido, teríamos dificuldade de aceitar que de fato “foi homem”.     A hora e o poder das trevas” (Lc 22, 53), em que lhe foram infligidas pelos homens toda a espécie de sofrimentos espirituais e físicos, e em que o próprio Deus abandonou o Supliciado, é para nós uma noite insondável. Nenhuma Via-Sacra, nem sequer os horrores das torturas humanas e dos campos de concentração fornecem uma imagem disso. Quem pode imaginar o que significa carregar o peso do pecado do mundo e da perversão íntima de uma humanidade que nega a Deus qualquer serviço e qualquer respeito, e isto face a um Deus que se afasta de todo este horror? Pois bem, o pecador pode ter esperança, o pecado não; mas Cristo, por nossa causa, “foi feito pecado”. (2 Cor 5, 21).

            Jesus foi morto. Morto da morte que o colocava em comunhão com os pecadores, mas da mais tenebrosa. E sepultado, pois, verdadeiramente morto, termina, como nós, o seu destino terrestre.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria


Como já afirmamos no artigo anterior, crer em Jesus é o centro de nossa fé e, por isso, ele possui um desdobramento muito grande dentro da formulação do Credo. Dessa forma, a partir da afirmação “Creio em Jesus Cristo”, nós agora professamos a razão pela qual nós cremos nele e, sobretudo, afirmamos que o homem que nasceu, padeceu, morreu e Ressuscitou, é Jesus, Filho de Deus.
Neste artigo, vamos nos debruçar um pouco sobre os dois pontos seguintes do Credo: “concebido pelo poder do Espírito Santo e “nasceu da Virgem Maria”. É o mistério da Encarnação, o cumprimento da promessa: o “Verbo tornou-se carne e armou a sua tenda entre nós”(Jo 1, 14a). Nosso Senhor nasceu, isto é, Nossa Senhora, a Virgem Maria, foi na realidade sua Mãe. O seu corpo nasceu do dela, assim como qualquer ser humano nasce de sua mãe.
Quando dizemos “Virgem Maria”, dizemos como que uma só palavra, contudo estamos dizendo três coisas separadas: que Maria era ainda virgem quando Nosso Senhor foi concebido. Ela não havia conhecido homem algum (cfLc 1,34) para chegar à maternidade. O Espírito a cobriu com sua sombra (cfLc 1, 35). Nosso Senhor não teve pai humano, é Filho de Deus; a segunda é que continuou quando Jesus nasceu. O nascimento de Jesus não lhe custou dor alguma e não deixou qualquer vestígio; a terceira, como já esperávamos, permaneceu virgem durante toda a vida.
Partindo do princípio de que Jesus era quem era, seria de supor que Ele viesse ao mundo de algum modo sobrenatural. Deus queria dar-nos um presente, o presente mais valioso que jamais alguém deu, fosse a quem fosse. E é natural que esperássemos que este presente viesse envolvido num mistério sobrenatural, anjos cantando no céu, fenômenos com as estrelas do firmamento, a ponto de perturbar três astrônomos da Caldéia. Tudo isto é absolutamente claro, e certamente não há ninguém que não consiga compreender esta parte do Credo, a não ser que negue a possibilidade de haver milagres.

Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor


O segundo artigo do Credo é o centro da fé cristã. O Deus confessado no primeiro artigo é o Pai de Jesus, Ungido pelo Espírito Santo como Salvador do mundo.
Sendo centro de nossa fé, este segundo artigo se desdobra nos quatro artigos seguintes: nasceu, padeceu, morreu e ressuscitou. Isso que dizer que a fé cristã confessa que Jesus, um homem que nasceu e morreu crucificado no começo de nossa era, é o Cristo, o Messias, o Ungido de Deus, centro de toda a história. Esse Jesus é o definitivo do ser humano e a manifestação plena de Deus.
Cremos em Jesus porque ele nos permite conhecer Deus em verdade e graça. O que devemos fazer é falar de Deus a partir de Jesus, descobrindo nele também a progressiva revelação que o povo de Israel viveu. Por isso ele é o Cristo, o Messias, o Ungido anunciado, profetizado, aguardado. Deus o ungiu com o Espírito Santo e com poder (cf. At 10, 38), aquele que deveria vir (cf. Lc 7, 19), o objeto de esperança de Israel e que levaria a Boa Nova aos pobres e inauguraria o Ano da Graça em Israel (cf. Is 61, 1-2).
Igualmente é também Filho de Deus, o primogênito e unigênito, o Verbo de Deus que se fez carne e habitou entre nós. Isso significa que Ele e o Pai são uma coisa só, existe entre eles uma relação única e eterna: Ele é Filho e o próprio Deus. Crer nisso é necessário para ser cristão.
Jesus é também Senhor de todo o universo. Essa afirmação designa a soberania divina, é crer em sua divindade. Igualmente, representa nossa pertença a Ele. Pertencemos a Ele quais ovelhas ao pastor. A maior indicação disso é que, pelo batismo, fomos assinalados, marcados com o sinal desta pertença: o sinal da cruz. Se ele é nosso Senhor, cabe a nós, portanto, seguir os Seus passos e ouvir a Sua voz que nos guia, para que nós, crituras problemáticas que somos, entremos com Ele, que é “novo céu e nova terra”, na vida íntima do amor divino. Creiamos nisso!

Continua...

quarta-feira, 27 de março de 2013

Creio em Deus Pai, todo-poderoso, criador do céu e da terra


Num mundo imerso em uma profunda crise de valores, de relativismo, de afastamento de Deus, o Credo cristão – que pressupõe, obviamente, a experiência fundante do encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo como revelador de Deus e do homem – apresenta-se com toda a sua capacidade para iluminar este tempo de desorientação.
Toda manifestação de fé que se segue está relacionada a esta verdade que professamos: Cremos no Deus único, Pai, que tudo criou por seu poder e por ninguém foi criado. É Ele o Criador de todo o Universo. A fórmula Niceno-constantinopolitana diz: “Creio em um único Deus criador de todas as coisas visíveis e invisíveis”. Tudo é obra da criação divina. Toda a história da salvação, portanto, está assentada sobre essa verdade. Uma verdade que nos revela três afirmações acerca de Deus e que professamos no primeiro artigo do Credo: ele é Pai, Onipotente e Criador.
Que ele é Pai, nós o sabemos, na sua plenitude última, por Jesus Cristo que se refere sempre a ele, com um amor, uma gratidão e uma adoração constantes. Deus é Pai porque ele é o gerador da vida, que se derrama, uma fonte que jorra sem ter atrás de si uma nascente, se auto-doa.
É Todo-Poderoso – onipotente – porque é o Senhor da história, é O Dom de si por excelência, nada o limita. Contudo, permanece um mistério o modo como Deus recorre à sua onipotência. Fazemos constantemente a pergunta: “Onde estava Deus quando...” e logo nos vêm à mente tantas desgraças que, ao longo da história, aconteceram e ainda acontecem no mundo. Percebamos então que a onipotência de Deus deve ser compreendida à luz da Páscoa de Jesus. A aparente “impotência” da Sexta-Feira da Paixão é o fato inicial para a manifestação da onipotência de Deus na Ressurreição.
Por fim, cremos num Deus criador, porque seu amor é tão perfeito que Ele cria um mundo livremente e sem constrangimento, cujo coração e sentido é seu Filho. Assim, a Criação é um chamamento à liberdade e a exercer nossa vocação de cooperadores da criação. O mundo e toda a Criação refletem a beleza de Deus, mas não são Deus, são, ao contrário, manifestação da glória de Deus.
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Esta é a nossa Fé


Como dissemos anteriormente no último artigo, a fé é um dom que nós recebemos da Igreja, que a professa e a transmite. Ao mesmo tempo, é um ato livre que testemunhamos com gratidão, pronunciando-a com consciência e empenho na assembleia que celebra a Eucaristia dominical. Ela é resposta à revelação de Deus e por isso é sempre dom. Ela nasce do espanto diante de Deus que se revela e se entrega. É a nossa resposta mais adequada. Por isso a fé é intimamente ligada ao amor, pois só se acredita em Deus precisamente porque se ama. E ama-se porque descobrimos sermos amados por ele. E aquele que vive o mandamento do amor na comunidade, crê como comunidade e na comunidade cristã que nos transmitiu a fé. Ao mesmo tempo se crê individualmente, sem possibilidade de se delegar, na medida em que a fé é uma escolha livre e voluntária. E fazemos isso por meio do Símbolo, a oração de nossa fé: o Credo.
A fórmula do Credo é a expressão fundamental da fé em que acreditamos, mas pressupõe, por sua vez, a fé com a qual acreditamos. São frases, fórmulas que têm a função de imagens, símbolos verbais e audíveis que remetem para Deus uno e trino, invisível, mas próximo.
Essa fé nós a expressamos não só professando-a, mas também celebrando-a nos sacramentos, uma vez que sem eles nossa profissão de fé não seria eficaz, pois faltaria a graça que sustenta o testemunho dos cristãos; vivendo-a em nossa comunidade paroquial, por meio do amor de Cristo que enche nossos corações e também rezando-a, pois devemos lembrar de Deus e de suas maravilhas, da mesma forma como nos lembramos de respirar. E o Credo nos proporciona isso.
Esta oração, o Credo, é o nosso selo espiritual, o Símbolo, aquilo que nos une, é a meditação do nosso coração e a sentinela sempre presente: é, sem dúvida, o tesouro de nossa alma e a porta de entrada para a intimidade com Deus que Se nos revela e que a Igreja nos transmite, não por opiniões humanas, mas pela revelação do próprio Deus nas Sagradas Escrituras.

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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Creio - Cremos


Caros irmãos e irmãs leitores, iniciamos com este artigo uma série de estudos sobre o dom precioso da nossa fé. Para isso, meditaremos quinzenalmente sobre um artigo do Credo que professamos na missa dominical. É proposta do Ano da Fé, proclamado solenemente pelo Santo Padre, o Papa Bento XVI, “[...] intensificar a reflexão sobre a fé, para ajudar todos os crentes em Cristo a tornarem mais conscientes e revigorarem a sua adesão ao Evangelho, sobretudo num momento de profunda mudança como este que a humanidade está a viver [...]” e que suscite “[...] em cada crente, o anseio de confessar a fé plenamente e com renovada convicção, com confiança e esperança” (Porta Fidei 8-9).
O Catecismo da Igreja Católica tem como título de sua primeira seção justamente o título desse artigo, que tomamos liberdade de tomar emprestado. Isso porque, quando iniciamos a profissão de nossa fé, iniciamos dizendo “Eu creio – Nós Cremos”. Agora, o que significa Crer? O catecismo vai afirmar que a fé é nossa resposta a Deus que se nos revela e se doa. Em suma, o homem busca a Deus que se revela, se apresenta ao homem. São Paulo vai dizer que “acredita-se com o coração e, com a boca, faz-se a profissão de fé” (Rm 10, 10). O coração indica que o primeiro ato, pelo qual se chega à fé, é dom de Deus e ação da graça que age e transforma a pessoa até ao mais íntimo dela mesma. O coração é o autêntico sacrário da pessoa humana; se ele não for aberto pela graça e não assimilar e acolher os conteúdos nos quais se deve acreditar, não se consegue enxergar em profundidade que aquilo que foi anunciado é palavra de Deus. Ao mesmo tempo, professar com a boca implica testemunho e compromisso. Não é um ato privado, ao contrário, possui uma dimensão pública de crer e anunciar a fé. 
Nessa perspectiva, “‘Eu creio’: é a fé da Igreja, professada pessoalmente por cada crente, principalmente por ocasião do Batismo. ‘Nós cremos’: é a fé da Igreja, confessada [...], de modo mais geral, pela assembleia litúrgica dos crentes. “Eu creio”: é também a Igreja, nossa Mãe, que responde a Deus pela sua fé e nos ensina a dizer: ‘Eu creio’, ‘Nós cremos’” (CIC 167).
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domingo, 7 de outubro de 2012

A Existência de Deus

Impulsionados por dois tão grandes eventos que estão acontecendo em nossa Santa Mãe Igreja, o Sínodo dos Bispos para a Nova Evangelização e a abertura do Ano da Fé, bem como retomando nosso trabalhos neste blog, iremos publicar alguns textos referentes às reflexões elaboradas a partir do Catecismo da Igreja Católica sobre nossa fé. Evidentemente, não são textos nossos, mas extraídos do site oficial da prelazia do Opus Dei no Brasil, que muito colaboram na propagação e transmissão da fé cristã.


Deus existe? É a grande pergunta que cada pessoa se faz. Porque se Deus existe, tudo muda: a vida, o amor, a amizade, a dor... Este texto doutrinal trata desta pergunta fundamental.


1. A dimensão religiosa do ser humano

A dimensão religiosa caracteriza o ser humano desde suas origens. Purificadas da superstição, devidas, em última análise, à ignorância e ao pecado, as expressões da religiosidade humana manifestam a convicção de que existe um Deus criador, do qual dependem o mundo e nossa existência pessoal. Se é verdade que o politeísmo tem acompanhado muitas fases da história humana, também é verdade que a dimensão mais profunda da religiosidade humana e da sabedoria filosófica tem procurado a justificação radical do mundo e da vida humana em um único Deus, fundamento da realidade e cumprimento de nossa aspiração à felicidade (cf. Catecismo, 28)[1]. 

Apesar de sua diversidade, as expressões artísticas, filosóficas, literárias etc, presentes nas culturas dos povos, possuem em comum a reflexão sobre Deus e sobre os temas centrais da existência humana: a vida e a morte, o bem e o mal, o destino último e o sentido de todas as coisas [2]. Como estas manifestações do espírito humano testemunham ao longo da história, pode-se dizer que a referência a Deus pertence à cultura humana e constitui uma dimensão essencial da sociedade e dos homens. A liberdade religiosa representa, portanto, o primeiro dos direitos, e a busca de Deus, o primeiro dos deveres: todos os homens, “pela sua própria natureza e por obrigação moral estão obrigados a dar sua adesão à verdade, uma vez conhecida”[3]. A negação de Deus e a tentativa de excluí-lo da cultura e da vida social e civil são fenômenos relativamente recentes, limitados a algumas regiões do mundo ocidental. O fato de que as grandes interrogações religiosas e existenciais tenham permanecido invariáveis no tempo[4] desmente a ideia de que a religião esteja circunscrita a uma fase “infantil” da história humana, destinada a desaparecer com o progresso do conhecimento. 

O cristianismo assume tudo o que há de bom na investigação e na adoração de Deus, manifestadas historicamente pela religiosidade humana, descobrindo, entretanto, seu verdadeiro significado, o de um caminho rumo ao único e verdadeiro Deus que Se revelou na história da salvação entregue ao povo de Israel e que veio ao nosso encontro, fazendo-Se homem em Jesus Cristo, Verbo Encarnado [5]. 

2. Das criaturas materiais até Deus

A inteligência humana pode conhecer a existência de Deus aproximando-se d’Ele por um caminho que tem como ponto de partida o mundo criado e que possui dois itinerários, as criaturas materiais e a pessoa humana. Embora este caminho tenha sido desenvolvido especialmente por autores cristãos, os itinerários que, partindo da natureza e das atividades do espírito humano levam até Deus, têm sido expostos e percorridos por muitos filósofos e pensadores de diversas épocas e culturas. 

As vias em direção à existência de Deus também se chamam “provas”, não no sentido que as ciências matemáticas e naturais dão a esse termo, mas como argumentos filosóficos convergentes e convincentes, que o indivíduo compreende com maior ou menor profundidade dependendo de sua formação específica (cf. Catecismo, 31). Que as provas da existência de Deus não podem ser entendidas no mesmo sentido das provas utilizadas pelas ciências experimentais se deduz com clareza do fato de que Deus não é objeto de nosso conhecimento empírico. 

Cada via em direção à existência de Deus alcança somente um aspecto concreto ou dimensão da realidade absoluta de Deus, o do específico contexto filosófico no qual a via se desenvolve: “partindo do movimento e da evolução, da contingência, da ordem e da beleza do mundo, pode chegar-se a conhecer a Deus como origem e fim do universo” (Catecismo, 32). A riqueza e a imensidão de Deus são tais que nenhuma dessas vias, por si mesma, pode chegar a uma imagem completa e pessoal de Deus, mas apenas a alguma faceta dela: existência, inteligência, providência etc. 

Entre as chamadas vias cosmológicas, umas das mais conhecidas são as célebres “cinco vias” elaboradas por São Tomás de Aquino, que contêm em boa medida as reflexões de filósofos anteriores a ele; para sua compreensão, é necessário ter algumas noções de metafísica [6]. As primeiras duas vias propõem a ideia de que as cadeias causais (passagem da potência ao ato, passagem da causa eficiente ao efeito) que observamos na natureza não podem retroceder ao infinito, mas devem apoiar-se em um primeiro motor e sobre uma primeira causa; a terceira via, partindo da observação da contingência e limitação dos entes naturais, deduz que sua causa deve ser um Ente incondicionado e necessário; a quarta, considerando os graus de perfeição participada que se encontram nas coisas, deduz a existência de uma fonte para todas estas perfeições; a quinta via, observando a ordem e o finalismo presentes no mundo, consequência da especificidade e estabilidade de suas leis, deduz a existência de uma inteligência ordenadora que seja também causa final de tudo. 

Estes e outros itinerários análogos foram propostos por diversos autores com diversas linguagens e formas distintas, até os nossos dias. Portanto, mantêm sua atualidade, ainda que para compreendê-los seja necessário um conhecimento das coisas baseado no realismo (em contraposição a formas de pensamento ideológico), e que não reduzam o conhecimento da realidade somente ao plano empírico experimental (evitando o reducionismo ontológico), de modo que o pensamento humano possa, em suma, subir, dos efeitos visíveis às causas invisíveis (afirmação do pensamento metafísico). 

O conhecimento de Deus é também acessível ao sentido comum, isto é, ao pensamento filosófico espontâneo, comum a todo ser humano, como resultado da experiência existencial de cada um: a admiração ante a beleza e a ordem da natureza, a gratidão pelo dom gratuito da vida, o fundamento e a razão do bem e do amor. Este tipo de conhecimento também é importante para captar a que sujeito se referem as provas filosóficas da existência de Deus: São Tomás, por exemplo, termina suas cinco vias unindo-as com a afirmação: “e isto é o que todos chamam Deus”. 

O testemunho da Sagrada Escritura (cf. Sb 13, 1-9; Rm 1, 18-20; At 17, 22-27) e os ensinamentos do Magistério da Igreja confirmam que o intelecto humano pode chegar ao conhecimento da existência de Deus criador, partindo das criaturas[7] (cf. Catecismo, 36-38). Ao mesmo tempo, quer seja a Escritura, quer seja o Magistério, advertem que o pecado e as más disposições morais podem tornar mais difícil este reconhecimento. 

3. O espírito humano é manifestação de Deus

O ser humano reconhece sua singularidade e preeminência sobre o resto da natureza. Ainda que participe de muitos aspectos de sua vida biológica com outras espécies animais, ele se reconhece único em sua fenomenologia: reflete sobre si mesmo, é capaz de progredir cultural e tecnicamente, percebe a moralidade de suas próprias ações, transcende com seu conhecimento e sua vontade, mas, sobretudo, com sua liberdade, o restante do cosmos material[8]. Em conclusão, o ser humano é sujeito de uma vida espiritual que transcende a matéria da qual, entretanto, depende[9]. Desde as origens, a cultura e a religiosidade dos povos têm explicado esta transcendência do ser humano afirmando sua dependência de Deus, de quem a vida humana contém um reflexo. Em sintonia com este sentir comum da razão, a Revelação judaico-cristã ensina que o ser do homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26-28). 

A pessoa humana está, ela própria, a caminho, rumo a Deus. Existem itinerários que conduzem a Deus partindo da própria experiência existencial: “Com sua abertura à verdade e à beleza, com seu sentido do bem moral, com sua liberdade e a voz de sua consciência, com sua aspiração ao infinito e à felicidade, o homem se interroga sobre a existência de Deus. Nestas aberturas, percebe sinais de sua alma espiritual”(Catecismo, 33). 

A presença de uma consciência moral que aprova o bem que fazemos e censura o mal que realizamos ou queríamos realizar, leva a reconhecer um Sumo Bem ao qual estamos chamados a nos conformar, do qual nossa consciência é como que um mensageiro. Partindo da experiência da consciência humana e sem conhecer a Revelação bíblica, vários pensadores desenvolveram, desde a antiguidade, uma reflexão sobre a dimensão ética do agir humano, reflexão da qual é capaz todo homem enquanto criado à imagem de Deus. 

Junto à própria consciência, o ser humano reconhece sua liberdade pessoal, como condição do próprio atuar moral. Nesse reconhecer-se livre, a pessoa humana vê em si a correspondente responsabilidade das próprias ações e a existência de Alguém ante o qual é responsável; este Alguém deve ser maior que a natureza material, e não inferior, mas superior, aos nossos semelhantes, também chamados a ser responsáveis como nós próprios. A existência da liberdade e da responsabilidade humanas conduz à existência de um Deus fiador do bem e do mal, Criador, legislador e remunerador. 

No contexto cultural atual, nega-se frequentemente a verdade da liberdade humana, reduzindo a pessoa a um animal um pouco mais desenvolvido, mas cujo agir estaria regulado fundamentalmente por impulsos necessários; ou identificam a sede da vida espiritual (mente, consciência, alma) com a corporeidade dos órgãos cerebrais e dos processos neurofisiológicos, negando assim a existência da moralidade do homem. A esta visão pode-se responder com argumentos que demonstram, no âmbito da razão e da fenomenologia humana, a auto-transcendência da pessoa, o livre arbítrio que atua também nas escolhas condicionadas pela natureza, e a impossibilidade de reduzir a mente ao cérebro. 

Também na presença do mal e da injustiça no mundo, muitos veem hoje em dia uma prova da não-existência de Deus, pois se existisse, não o permitiria. Na verdade, esta inquietude e esta interrogação são também “vias” para Deus. A pessoa, com efeito, percebe o mal e a injustiça como privações, como situações dolorosas que não eram para existir, que reclamam um bem e uma justiça à que aspira. Pois se a estrutura mais íntima do nosso ser não aspirasse ao bem, não veríamos no mal um dano e uma privação. 

No ser humano existe um desejo natural de verdade, de bem e de felicidade, que são manifestações de nossa aspiração natural de ver a Deus. Se tal pretensão ficasse frustrada, a criatura humana seria convertida em um ser existencialmente contraditório, já que estas aspirações constituem o núcleo mais profundo da vida espiritual e da dignidade da pessoa. Sua presença no mais profundo do coração mostra a existência de um Criador que nos chama a Si através da esperança n’Ele. Se as vias “cosmológicas” não garantem a possibilidade de chegar a Deus enquanto ser pessoal, as vias “antropológicas”, que partem do homem e de seus desejos naturais deixam entrever que o Deus do qual reconhecemos nossa dependência deve ser uma pessoa capaz de amar, um ser pessoal, diante de criaturas pessoais. 

A Sagrada Escritura contém ensinamentos explícitos sobre a existência de uma lei moral inscrita por Deus no coração do homem (cf. Eclo 15, 11-20;Sl 19; Rm 2, 12-16). A filosofia de inspiração cristã denominou-a “lei moral natural”, acessível aos homens de todas as épocas e culturas, ainda que seu reconhecimento, como no caso da existência de Deus, pode ficar na obscuridade pelo pecado. O Magistério da Igreja tem enfatizado repetidamente a existência da consciência humana e da liberdade como vias para Deus [10]. 

4. A negação de Deus: as causas do ateísmo

As diversas argumentações filosóficas empregadas para “provar” a existência de Deus não causam necessariamente a fé em Deus, mas apenas asseguram que a fé é razoável. E isto por vários motivos: a) levam o homem a reconhecer alguns atributos filosóficos da imagem de Deus (bondade, inteligência etc.), entre os quais sua própria existência, mas não indicam nada sobre Quem seja o ser pessoal para o qual se dirige o ato de fé; b) a fé é a resposta livre do homem a Deus que Se revela, não uma dedução filosófica necessária; c) o próprio Deus é causa da fé: Ele é quem Se revela gratuitamente e move com sua graça o coração do homem para que dê sua adesão a Ele; d) deve-se considerar a obscuridade e a incerteza com a qual o pecado fere a razão do homem, obstaculizando tanto o reconhecimento da existência de Deus como a resposta de fé a sua Palavra (cf. Catecismo, 37). Por estes motivos, particularmente o último, sempre é possível a negação de Deus por parte do homem[11]. 

O ateísmo possui uma manifestação teórica (tentativa de negar positivamente a Deus, por via racional) e uma prática (negar a Deus com o próprio comportamento, vivendo como se não existisse). Uma profissão de ateísmo positivo como consequência de uma análise racional de tipo científico, empírico, é contraditória, porque – como já se disse – Deus não é objeto de saber científico-experimental. Uma negação positiva de Deus a partir da racionalidade filosófica é possível por parte de visões específicas apriorísticas da realidade, de caráter quase sempre ideológico, principalmente o materialismo. A incongruência destas visões pode pôr-se de manifesto com a ajuda da metafísica e da gnosiologia realista. 

Uma causa difundida de ateísmo positivo consiste em considerar que a afirmação de Deus supõe uma penalização para o homem: se Deus existisse, então não seríamos livres, nem gozaríamos de plena autonomia na existência terrena. Este enfoque ignora que a dependência da criatura em relação a Deus fundamenta a liberdade e a autonomia da criatura[12]. O contrário, sim, é que é verdadeiro: como ensina a história dos povos e nossa recente época cultural, quando se nega a Deus, termina-se negando também o homem e sua dignidade transcendente. 

Outros chegam à negação de Deus considerando que a religião, particularmente o cristianismo, representa um obstáculo ao progresso humano, pois é fruto da ignorância e da superstição. A esta objeção pode-se responder a partir de bases históricas: é possível mostrar a influência positiva da Revelação cristã sobre a concepção da pessoa humana e seus direitos, ou até sobre a origem e o progresso das ciências. Por parte da Igreja Católica, a ignorância foi sempre considerada, e com razão, um obstáculo no caminho da verdadeira fé. Em geral, aqueles que negam a Deus para afirmar o aperfeiçoamento e o avanço do homem, fazem-no para defender uma visão imanente do progresso histórico, que tem como fim a utopia política ou um bem-estar puramente material, que são incapazes de satisfazer plenamente as expectativas do coração humano. 

Entre as causas do ateísmo, especialmente do ateísmo prático, deve incluir-se também o mau exemplo dos crentes, “na medida em que, com o descuido da educação religiosa, ou com a exposição inadequada da doutrina, ou inclusive com os defeitos de sua vida religiosa, moral e social, velaram, em vez de revelar o genuíno rosto de Deus e da religião”[13]. De modo positivo, a partir do Concílio Vaticano II, a Igreja sempre apontou o testemunho dos cristãos como o principal fator para realizar uma necessária “nova evangelização”[14]. 

5. O agnosticismo e a indiferença religiosa

O agnosticismo, difundido especialmente nos ambientes intelectuais, sustenta que a razão humana não pode concluir nada sobre Deus e sua existência. Com frequência seus defensores se propõem um empenho de vida pessoal e social, mas sem qualquer referência a um fim último, procurando assim viver um humanismo sem Deus. A posição agnóstica termina com frequência identificando-se com o ateísmo prático. Quanto ao mais, quem pretendesse orientar os fins parciais do próprio viver cotidiano sem nenhum tipo de compromisso com a tendência natural ao fim último dos próprios atos, na realidade deveria dizer que no fundo já escolheu um fim, de caráter imanente para a própria vida. A posição agnóstica merece, de qualquer modo, respeito, se bem que seus defensores devem ser estimulados a demonstrar a retidão de sua não-negação de Deus, mantendo uma abertura à possibilidade de reconhecer sua existência e revelação na história. 

A indiferença religiosa – também chamada “irreligiosidade” – representa hoje a principal manifestação de incredulidade, e como tal, vem recebendo crescente atenção por parte do Magistério da Igreja [15].O tema de Deus não se leva a sério, ou não se leva em consideração, em absoluto, porque é sufocado na prática por uma vida orientada para os bens materiais. A indiferença religiosa coexiste com certa simpatia pelo sagrado, e talvez pelo pseudo-religioso, apreciados de um modo moralmente descuidado, como se fossem bens de consumo. Para manter por um bom tempo uma posição de indiferença religiosa, o ser humano necessita de contínuas distrações e desse modo não precisa deter-se em problemas existenciais mais importantes, separando-se tanto da vida cotidiana como da própria consciência: o sentido da vida e da morte, o valor moral das próprias ações etc. Mas, como na vida de uma pessoa há sempre acontecimentos que “fazem a diferença” (o apaixonar-se, paternidade e maternidade, mortes prematuras, dores e alegrias etc.), a posição de “indiferentismo” religioso não pode ser mantida ao longo de toda a vida, porque sobre Deus não se pode evitar o interrogar-se, ao menos alguma vez na vida. A partir de tais acontecimentos existencialmente significativos, é preciso ajudar o indiferente a abrir-se com seriedade para a busca e afirmação de Deus. 

6. O pluralismo religioso: há um único e verdadeiro Deus, que Se revelou em Jesus Cristo
A religiosidade humana – que quando é autêntica, é caminho em direção ao reconhecimento do único Deus – tem-se expressado e se manifesta na história e na cultura dos povos, em formas diversas e às vezes também no culto a diferentes imagens ou ideias da divindade. As religiões da terra que manifestam a busca sincera de Deus e respeitam a dignidade transcendente do homem devem ser respeitadas: a Igreja Católica considera que nelas está presente uma faísca, quase uma participação da Verdade divina[16]. Ao se aproximar das diversas religiões da terra, a razão humana sugere um oportuno discernimento: reconhecer a presença de superstição e de ignorância, de formas de irracionalidade, de práticas que não estão de acordo com a dignidade e a liberdade da pessoa humana. 

O diálogo inter-religioso não se opõe à missão e à evangelização. Mais ainda, respeitando a liberdade de cada um, a finalidade do diálogo há de ser sempre o anúncio de Cristo. As sementes de verdade que as religiões não cristãs podem conter, são, de fato, sementes da Única Verdade que é Cristo. Portanto, essas religiões não cristãs têm o direito de receber a revelação e serem conduzidas à maturidade mediante o anúncio de Cristo, caminho, verdade e vida. Entretanto, Deus não nega a salvação àqueles que, ignorando sem culpa o anúncio do Evangelho, vivem segundo a lei moral natural, reconhecendo seu fundamento no único e verdadeiro Deus[17]. 

No diálogo inter-religioso, o cristianismo pode proceder mostrando que as religiões da terra, enquanto expressões autênticas do vínculo com o verdadeiro e único Deus, alcançam no cristianismo seu cumprimento. Somente em Cristo, Deus revela o homem ao próprio homem, oferece a solução de seus enigmas e lhe descobre o sentido profundo de suas aspirações. Ele é o único mediador entre Deus e os homens[18]. 

O cristão pode manter um diálogo inter-religioso com otimismo e esperança, uma vez que sabe que todo ser humano foi criado à imagem do único e verdadeiro Deus e que cada um, se sabe refletir no silêncio de seu coração, pode escutar o testemunho da própria consciência, que também conduz ao único Deus, revelado em Jesus Cristo. “Para isto nasci e para isto vim ao mundo – afirma Jesus diante de Pilatos -, para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18,37). Neste sentido, o cristão pode falar de Deus sem risco de intolerância, porque o Deus que ele exorta a reconhecer na natureza e na consciência de cada um, aquele Deus que criou o céu e a terra, é o mesmo da história da salvação, que foi revelada ao povo de Israel e Se fez homem em Cristo. Este foi o itinerário seguido pelos primeiros cristãos: repeliram a ideia de se adorar a Cristo como um a mais entre os deuses do Pantheon romano, porque estavam convencidos da existência de um único e verdadeiro Deus; e se empenharam ao mesmo tempo em mostrar que o Deus vislumbrado pelos filósofos como causa, razão e fundamento do mundo, era e é o mesmo Deus de Jesus Cristo [19]. 

Giuseppe Tanzella-Nitti


Bibliografia básica
Catecismo da Igreja Católica, 27-49.

Concilio Vaticano II, Const. Gaudium et spes, 4-22.

João Paulo II, Enc. Fides et ratio, 14-09-1998, 16-35.

Bento XVI, Enc. Spe salvi, 30-11-2007, 4-12.

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[1] Cf. João Paulo II, Enc. Fides et ratio, 14-09-1998, 1.

[2] “Para além de todas as diferenças que caracterizam os indivíduos e os povos, há uma dimensão fundamental comum, já que as várias culturas não são, na realidade, mais que modos diversos de abordar a questão do significado da existência pessoal. Precisamente aqui podemos identificar uma fonte do respeito que é devido a cada cultura e a cada nação: toda cultura é um esforço de reflexão sobre o mistério do mundo, e em particular do homem: é um modo de expressar a dimensão transcendente da vida humana. O coração de cada cultura é constituído pela proximidade do maior dos mistérios: o mistério de Deus”, João Paulo II, Discurso na O.N.U., New York, 5-10-1995, «Magistério», XVIII,2 (1995) 730-744, n. 9.

[3] Concílio Vaticano II, Decl. Dignitatis humanae, 2.

[4] Cf. Concílio Vaticano II, Const. Gaudium et spes, 10.

[5] Cf. João Paulo II, Carta Ap. Tertio millennio adveniente, 10-11-1994, 6; Enc. Fides et ratio, 2.

[6] Cf. S. São Tomás de Aquino, Summa theologiae, I, q. 2, a. 3; Contra gentiles, I, c. 13. Para uma exposição detalhada remete-se o leitor a estas duas referências de São Tomás e a algum manual de Metafísica ou Teologia Natural.

[7] Cf. Concílio Vaticano I, Const. Dei Filius, 24-IV-1870, DH 3004; Motu Proprio Sacrorum Antistitum, 1-09-1910, DH 3538; Congregação para a Doutrina da Fe, Inst. Donum veritatis, 24-5-1990, 10; Enc. Fides et ratio, 67.

[8] “Com agradecimento, porque percebemos a felicidade a que estamos chamados, aprendemos que todas as criaturas foram tiradas do nada por Deus e para Deus: as racionais, os homens, ainda que com tanta frequência percamos a razão; e as irracionais, as que perambulam pela superfície da terra, ou habitam nas entranhas do mundo, ou cruzam o azul do céu, algumas até olhar fixamente para o sol. Porém, em meio a esta maravilhosa variedade, somente nós, os homens – não me refiro aos anjos – nos unimos ao Criador pelo exercício de nossa liberdade: podemos render ou negar ao Senhor a glória que lhe corresponde como Autor de tudo o que existe”, São Josemaria, Amigos de Deus, 24. 

[9] Cf. Concílio Vaticano IIConst. Gaudium et spes, 18.

[10] Cf. Ibidem, 17-18. Em particular, a doutrina sobre a consciência moral e a responsabilidade ligada à liberdade humana no quadro da explicação da pessoa humana como imagem de Deus, foi extensamente elaborada por João Paulo II, Enc. Veritatis splendor, 6-8-1993, 54-64.

[11] Cf. Concílio Vaticano IIConst. Gaudium et spes, 19-21.

[12] Cf. Ibidem, 36.

[13] Ibidem, 19.

[14] Cf. Ibidem, 21; Paulo VI, Enc. Evangelii nuntiandi, 8-12-1975, 21; João Paulo II, Enc. Veritatis splendor, 93; João Paulo II, Carta Ap. Novo millennio ineunte, 6-01-2001, cap. III e IV.

[15] Cf. João Paulo II, Ex. Ap. Christifideles laici, 30-12-1988, 34; Enc. Fides et ratio, 5.

[16] Cf. Concílio Vaticano II, Decl. Nostra Aetate, 2.

[17] Cf. Concílio Vaticano II, Const. Lumen gentium, 16.

[18] Cf. João Paulo II, Enc. Redemptoris missio, 7-12-1990, 5; Congregação para a Doutrina da Fé, Decl. Dominus Iesus, 6-08-2000, 5;13-15.

[19] Cf. João Paulo II, Enc. Fides et ratio, 34; Bento XVI, Enc. Spe salvi, 30-11-2007, 5.